segunda-feira, 18 de agosto de 2025

depois de quase um ano sem usar aplicativos de relacionamento, há umas 3 semanas eu baixei de novo e me dei o direito de conhecer pessoas, conversar, sair, conhecer.
pra mulher aplicativo é muito fácil. você dá like e vem um monte de macho babão querendo sair com você. alguns querem mandar uma historinha de que estão procurando um relacionamento sério, alguns são mais diretos e deixam claro que querem só sexo. se eu quisesse, poderia sair todo dia da semana com um cara diferente. acontece que eu tenho preguiça e não faço isso.
mesmo assim, eu já saí com alguns caras. teve o cara que me ludibriou dizendo que era viúvo, pai e estava em busca de um relacionamento sério; transamos e ele não teve a decência de me mandar uma mensagem perguntando se eu tinha chegado bem em casa, perguntando se eu estava bem no outro dia. fiquei um pouco chateada achando que talvez pudesse ser algum problema comigo, mas depois lembrei do que aprendi na terapia e simplesmente aceitei que o que outro faz diz respeito pura e simplesmente ao outro, e não a mim, então eu não sou obrigada a lidar com essa culpa. teve outro cara que me chamou simplesmente pra 'tomar um vinho' na casa dele, eu fui, rolou o que tinha que rolar, fui pra casa e a vida seguiu, sem expectativas maiores, sem grandes decepções. teve um terceiro que parecia super legal, conversa boa, me dava atenção, mas daí no date descobri que ele está desempregado e ainda mora com os pais aos 36 anos - pra esse, sem chance de continuar rolando algo. e tem outros. tem o que fala que quer um relacionamento sério e uma família. tem o podólotra. tem o que eu estou enrolando há semanas. tudo muito fácil.
mas eu to escrevendo esse post por um motivo muito específico: essas saídas têm feito com que eu deixe a minha abstinência de lado e tenha bebido um pouquinho. nas saídas sempre rola uma caipirinha, um vinho. estou conseguindo me controlar bem - bebo um pouquinho e ja fico me sentindo meio bêbada, vou pra casa dormir. mas teve o dia do vinho em que eu fiquei bêbada como ficava antes quando estava bebendo todos os dias. apaguei completamente, não me lembro de nada. só de imaginar os perigos aos quais eu me expus saindo com um cara que eu mal conhecia e bebendo até ter amnésia me dá um mal estar. não posso deixar isso acontecer novamente. 
se por um lado eu tenho burlado a minha própria abstinência, por outro eu tenho estado orgulhosa de mim mesma. de modo geral tenho bebido pouco, chegado cedo em casa, não trazido bebida pra casa. ontem por exemplo foi um dia complicado, passei o dia todo pensando em chegar em casa, comprar uma garrafa de vinho e beber, mas consegui ter a força de não comprar bebida e ir dormir sóbria. a recompensa foi uma noite bem descansada e ter acordado bem para enfrentar a semana.
o vício é uma coisa que toma conta de toda a sua vida. eu não sou alcoólatra só quando tem bebida por perto. eu sou alcoólatra em todos os momentos da minha vida. beber é algo que permeia a minha mente todos os dias, o dia todo. to tentando ter uma relação menos danosa com a bebida, mas ainda não to 100% no caminho certo. o ideal seria a abstinência total; como não consigo, estou fazendo uma contenção de danos.
então é isso. vida social inclui ter que lidar com o meu vício. tá sendo difícil, mas pouco a pouco eu vou aprendendo a dar conta.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

eu confesso que estou me sentindo meio esquisita nas últimas semanas.
estou experimentando uma fase em que estou super estável emocional, fisica, financeiramente. tudo está nos conformes. acabei de comprar uma casa (que vou pagar pelos próximos quinze anos, mas vou fingindo costume). estou de bem com o meu corpo e com a minha mente. estou sem beber e sem usar medicações que não foram prescritas pra mim. tudo está do jeito que devia estar.
é estranho me sentir assim porque, conforme já falei com a minha psicóloga por diversas vezes, eu me acostumei a não estar bem. me acostumei ao desconforto, ao mal estar, e estar com a vida nos eixos é algo tão estranho que acaba sendo incomum e me causando certa inquietação. fico o tempo todo esperando o erro, o descuido, aquilo que vai me tirar do meu equilíbrio e me fazer recair nos meus comportamentos novamente. acabo não aproveitando plenamente o fato de estar bem pelo medo que eu tenho do momento em que não vou estar bem novamente. já aconteceu tantas vezes, eu estar equilibrada, feliz, e do nada aparecer algo que desequilibre a minha vida de novo, me faça recair e voltar pro fundo do poço... eu tenho medo de que isso aconteça de novo. só que preciso me permitir saber que não tenho domínio de quando isso vai (se é que vai) acontecer e que está tudo bem com isso.
preciso trabalhar minha mente pra não sofrer por antecipação com aquilo que pode (ou não) acontecer e me tirar do meu prumo. as chances são 50/50%: pode acontecer algo que me desequilibre ou pode não acontecer. a vida não é linear, e cedo ou tarde vão surgir fatores de estresse que vão me testar pra ver se eu tenho a capacidade de me manter bem apesar de tudo. tenho que estar bem preparada pra isso.
enquanto não ocorre, tenho que me manter lúcida e serena pra aproveitar o bom momento que estou vivendo, sem ter medo do dia em que as coisas vão desandar e dar lugar ao pandemônio de novo. tenho que me acostumar a estar bem, pra que isso seja a regra, e não a exceção na minha vida. tenho que me dar o direito de estar equilibrada. tenho que me dar o direito de ser feliz.

terça-feira, 24 de junho de 2025

um dia frio, um bom lugar pra ler um livro...

 hoje está fazendo o meu tipo de dia preferido em curitiba: céu azul, sem nenhuma nuvem, e frio de rachar.

eu me mudei pra curitiba quando tinha 11 anos. vim de uma cidade do interior, quente, acolhedora, para uma realidade completamente diferente. como eu estranhei curitiba nos primeiros anos! o frio, a sisudez das pessoas, o sotaque... pra mim, uma menina vinda de uma cidade pequena, era completamente diferente daquilo a que eu estava acostumada.

mas pouco a pouco fui me adaptando. o frio a gente resolve com mais uma camada de blusas; a sisudez das pessoas, aprende-se a ser igual a elas; o sotaque adquire-se. no fundo eu sempre fui uma menina do interior. sempre gostei de conversar, de interagir com as pessoas. só que pouco a pouco essa janaina foi dando lugar a janaina curitibana - fechada, reclusa, inacessível. fui tomando pra mim essa persona e acabei me tornando ela.

hoje eu já não sei quem eu sou de verdade. não sei se sou a janaina do interior ou a janaina da capital. o que eu sei é que 25 anos de curitiba me fizeram preferir os dias iguais a hoje: céu azul, sem nenhuma nuvem, e frio de rachar - talvez um reflexo do meu coração?

terça-feira, 17 de junho de 2025

 estou numa maré muito boa ultimamente.

desde que parei de fazer coisas que me prejudicavam - e coloque-se nessa categoria beber e tomar remédio controlado como se não houvesse amanhã - as coisas estão mais equilibradas no meu dia a dia. estou rendendo bem no trabalho e dormindo bem. tudo bem que me falta ânimo pra fazer as atividades do lar - minha casa não vê uma vassoura há semanas -, ir pra academia e cozinhar, mas já me faltava ânimo antes quando eu vivia dopada de coisas que não me faziam bem.

estou me dando melhor com a minha família, com os meus amigos e com os meus colegas de trabalho. sinto falta de romance na minha vida, mas isso está em segundo plano agora - o foco é me colocar bem, me fazer feliz e colocar a cabeça no lugar. sinto que estou me esforçando pra tudo dar certo e eu finalmente poder ser eu mesma sem ter subterfúgios pra me esconder por trás de coisas que só mascaravam o que eu sou e sinto.

escrever me faz bem. me ajuda a colocar as coisas em perspectiva e analisar melhor aquilo pelo que estou passando. escrevo pra ninguém ler. escrevo pra mim mesma. escrevo como forma de terapia. esse blog é só meu, só eu. e estou feliz assim.

lembro de uma época em que ter um blog era praticamente obrigatório pras pessoas que estavam na internet. a maioria das coisas que as pessoas escreviam eram besteiras. por serem públicos, os blogs não eram espaço onde você pudesse assumir quem era e se abrir. eram só pra mostrar pros outros. esse blog nunca foi assim. tive pouquíssimos leitores, e quem me lia, o meu 'público alvo', não eram pessoas da vida real, então eu sempre pude escrever o que se passava na minha cabeça.

e continuo fazendo isso. numa versão piorada de mim mesma, porque sinto que emburreci nos últimos anos. talvez seja o excesso de medicação e de álcool cobrando seu preço ao transformar meu cérebro numa massa disforme e sem capacidade de ter pensamentos organizados, de criar algo bonito, bem feito.

mas essa sou quem eu sou. e me agarro à oportunidade de ser eu mesma, porque ser outra pessoa já não é o suficiente pra mim. quero liberdade.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

por decisão minha.

 tem coisas que a gente tem que fazer por decisão nossa. não adianta o quanto se escute dos outros que certos comportamentos são nocivos pra gente, só se para de tomar essas atitudes se VOCÊ se conscientiza de que elas estão fazendo mal e resolve parar.


foi assim com o cigarro. foi assim com os remédios. foi assim com a bebida.


por mais que quem estivesse ao meu redor me enchesse o saco pra eu parar, EU não queria parar. eu me agarrava a uma esperançazinha de que lá no fundo eu não fosse viciada, que conseguisse parar quando quisesse. e eu só quis a partir do momento em que essas coisas estavam me fazendo muito mal. só percebi o quão mal estavam me fazendo quando cheguei no fundo do poço: bebia e tomava remédio pra dormir, acordava pra tomar remédio e beber, e assim meus dias iam se repetindo. e eu decidi que não era esse o futuro que eu queria pra mim. só assim eu parei.


é muito recente ainda a minha decisão de parar. ainda estou no comecinho, na corda bamba entre o vício e a sobriedade. tem dias em que é difícil. parece que meus dias são vazios sem a bebida e sem os remédios, sabe? mas vou me segurando aos pouquinhos. todo dia é um dia. só por hoje não. eu quero viver, não vegetar como estava fazendo. e de pouco em pouco a vida vai ficando mais colorida de se viver.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

i thought it was a bird, but it was just a paper bag.

 é engraçado como a vida é  às vezes.

você planeja passar no vestibular aos 17, se formar aos 23, fazer especialização e residência, noivar aos 27, casar aos 28, ter filhos aos 30. eu estou com 36 e todos, absolutamente todos os projetos de vida que fiz deram errado.

eu não entrei na faculdade aos 17, precisei de 3 anos de cursinho. com isso, me formei aos 26, e não aos 23. comecei a residência e inúmeras pós e especializações e nunca terminei nenhuma. não conheci o amor da minha vida, não casamos e não tive filhos.

parece que as coisas são tão mais fáceis pra algumas pessoas, né? todo esse teatro que vivemos parece mais suave, mais tranquilo pra algumas pessoas. talvez seja o borderline falando, mas eu sinto que tudo é tão mais difícil pra mim. não quero parecer ingrata ou pessimista, mas é assim que eu me sinto.

como se estivesse correndo atrás de coisas que são impossíveis pra mim.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

mais um dia.

 mais um dia tentando manter a constância das publicações.

a intenção desse blog é puramente egoísta. é um modo de registrar meus pensamentos, minhas emoções e tentar me manter focada no que importa, que sou eu, minha família, meus (poucos) amigos e meu bem estar.

ontem pelo segundo dia seguido eu fiz comida em casa. eu não fazia comida em casa fazia uns 4 meses, e dois dias seguidos cozinhando era algo de que eu mal me lembrava de ter feito no último ano. quarta eu tinha feito arroz, feijão e legumes, acabei com tudo em um dia. ontem foi uma coisinha mais simples, um macarrão com salsicha que por mais trivial que seja, é uma comida que me traz saudade da infância, de casa. também fui no mercado e comprei comida de verdade, carne, frutas, legumes, arroz, feijão, pra ver se me engajo em cozinhar um pouco mais em casa e parar de gastar tanto com comida pronta e ultraprocessados. ah, e comprei um ferro de passar novo, que o meu tinha queimado.

ainda tenho um problema que é a sensação de vazio crônico que toma conta de mim depois de uma determinada hora. até umas 19 horas eu vou bem, focada, sem vontade de transgredir, mas depois desse horário me dá uma sensação de vazio, de não ter nada, que eu acabava tentando compensar com álcool. acho que o problema é a fixação oral hehehe

to tentando burlar esse aspecto da minha personalidade indo dormir cedo. ontem por exemplo às 19 horas eu já tava deitada, pronta pra ir dormir. levantei à noite e comi um monte, um queijo branco maravilhoso que eu tinha comprado, pipoca, doritos de pimenta mexicana. mas entendo que é melhor pro meu organismo eu comer bem do que encher o cy de cachaça, ir dormir bêbada e acordar de ressaca todo dia. ressaca de comida é melhor do que ressaca de gim.

a parte boa de comer a noite é que eu não acordo com fome. sei que é disfuncional levantar de noite pra comer, mas é o menos disfuncional que eu consigo do jeito que estou indo.

outra parte boa é acordar bem. eu entro no trabalho às 8, então geralmente colocava o relógio pra 06:35 e ia enrolando até 07:20, só escovava os dentes, colocava uma roupa e vinha trabalhar. agora ('agora', nesses dois dias, como se fosse muita coisa kkk) eu to levantando antes do celular tocar pela primeira vez, escovado os dentes, feito minha skincare, me trocado, feito um cafezinho preto antes de sair e chegando 07:30 no trabalho, com tempo pra me atrasar pras consultas em paz kkk

espero conseguir manter essa constância. tanto na alimentação, quanto no cuidado pessoal, quanto no trabalho, e principalmente quanto à abstinência. minha psicóloga está de férias, volta semana que vem, e eu tenho muuuuuita coisa pra conversas com ela. pela primeira vez em muito tempo tô ansiosa pelos dias que estão por vir, uma ansiedade boa, fruto do desejo de melhorar, e não do desejo de tomar a próxima dose.

que permaneça assim :)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

it's the end of the world as we know it.

 meu final de ano foi ruim.

ruim por coisas que eu mesma fiz e eu mesma busquei, não por causa dos outros. recaí em comportamentos que jurei pra mim mesma que não iam acontecer mais e quase fui internada de novo. a sorte é que eu prometi pra mim mesma que dia 31/12 seria o último dia em que eu faria besteira, iria recomeçar do zero dia 01/01. e assim estou tentando fazer.

eu sei que hoje é só dia 02, mas eu já limpei a minha casa, passei roupa (tentei né, porque o ferro queimou), fiz comida (não saía um feijão caseiro naquela casa há quase 1 ano), voltei a tomar meus remédios. são baby steps, mas acho que tem que começar assim, aos poucos, pra poder ir me fortalecendo e alcançando pouco a pouco o meu objetivo, que é ficar bem sem ter que recorrer a nada pra isso.

sinto falta de ter amigos. eu me afastei demais das pessoas ao meu redor enquanto me fechava na minha esfera de auto comiseração. preciso retomar minhas amizades, fazer novos amigos, resgatar quem eu era antes de ser quem eu sou.

sinto falta de ter um amor. mas esse não é meu foco agora, preciso focar em mim pra poder ser completa e, sendo assim, ser só complementada por outra pessoa, sem depender dela pra ser eu mesma.

terapia recomeça na segunda feira. tenho tanta coisa pra contar pra minha psicologa, e ao mesmo tempo não sinto vontade de falar sobre nada com ela.

e a vida vai seguindo assim, dia a dia, passo a passo.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

we wish you a merry christmas.

 final de ano é uma época complicada pra mim. soma-se ao cansaço acumulado do ano inteiro a sensação de não ter cumprido tudo o que me propus a fazer durante o ano e esse clima irreal de familiaridade e união que me sufocam e me fazem querer que as festas passem logo, acabem logo, e que a vida volte ao normal no dia 2 de janeiro.

mas o que eu mais odeio nessa época de festas é a saudade que eu sinto de como as coisas eram quando eu era criança. sinto falta da casa cheia, da música, da mesa farta, dos tios e primos, da árvore cheia de presentes. sinto muita falta da minha mãe, que adorava o natal e não perdia a oportunidade de decorar toda a casa e organizar a ceia da família. sinto falta da sensação de ter uma família. 

hoje minha família somos meu pai, minha irmã, meu cunhado e eu. não tem uma criança pra animar as festas. não tem mãe, não tem avós, não tem tios, não tem primos. sinto como se eu tivesse me afastado de toda a minha essência ao me afastar da minha família. eu tenho essa tendência de me isolar. pra ser sincera, adoro minha própria companhia, e geralmente não sinto falta da companhia dos outros. mas nessa época do ano eu tenho saudade da família que um dia eu tive - e que nunca mais vai voltar a ser a mesma.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

recomeço.

 e eis que 11 anos depois eu redescubro esse blog.

foi uma viagem no tempo ler meus posts antigos - alguns pareciam até que não foram escritos por mim. eu tinha uma clareza de ideias e pensamentos que não condiziam com a mente confusa que eu tenho hoje. onde eu parei de ser eu mesma? onde me perdi no caminho e não soube mais encontrar? como eu faço pra poder voltar a ser quem eu era?

acho que sei as respostas melhor do que ninguém. tanta coisa aconteceu nesses 11 anos que seria impossível eu ter permanecido a mesma pessoa. tantos sonhos desfeitos, tantos outros construídos, tantos homens passaram pela minha vida, tantas mulheres. tantas garrafas de gim. tanto que eu não consigo nem começar a catalogar.

resolvi voltar pra esse blog por conta da terapia. minha terapeuta me perguntou uma coisa muito difícil de definir: o que a Jana de 15 anos gostava de fazer que a Jana de 36 não faz mais? e, do nada, apareceu na minha cabeça: escrever. eu sinto falta de escrever, de me expressar. sinto falta de jogar palavras ao vento e deixar elas formarem um emaranhado de fatos, ideias, pensamentos, que, quando juntados, traduzem da melhor forma que consigo expressar aquilo que eu sou.

eu poderia começar um blog novo, do zero. poderia. mas o fato é que eu sinto falta de quem eu era quando escrevia aqui quase todos os dias. sinto falta da jovem que eu era. sinto falta de mim mesma.

então vamos recomeçar. não dá pra retomar do ponto onde parei - como eu disse, tanta coisa mudou nesses 11 anos -, mas posso recomeçar. posso me dar uma nova chance. posso tentar ser euzinha de novo. e é pra isso que eu voltei a escrever.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

thump.

às vezes, eu sinto como se eu pudesse escutar tudo ao meu redor.

ouço as pessoas falando. as mentes delas se agitando. ouço sentimentos, desejos, temores. ouço a cidade. os carros, as ruas, os pássaros e a eletricidade. os canos das casas. a grama crescendo. o esgoto fluindo.

eu também me ouço. ouço meu sangue correndo pelas minhas veias, quente, vermelho, suave. salgado. ouço meus pensamentos correndo rápido pelo meu cérebro. as vontades sumindo em meio às minhas ações. ouço quem eu sou. quem eu devia ser. quem eu nunca foi.

mas também tem o que eu não ouço. amor. bondade. perdão. tem o que eu não sei ouvir. gentileza. poesia. eu. ouço tudo, e nada escuto - especialmente quando, dentre tudo o que eu ouço, tudo o que eu queria ouvir era o thump que meu corpo faria ao se espatifar no chão quando eu cedesse aos meus desejos mais intrínsecos e pulasse do 23o andar.

sábado, 6 de setembro de 2014

inutilia truncat.

uma das coisas mais difíceis que eu tive que aprender a fazer na minha vida foi aprender a me livrar do que não me faz bem. sendo bem honesta, talvez eu ainda não tenha dominado essa arte. 

sou uma pessoa de hábitos. previsível e confiável. gosto de acordar sempre no mesmo horário e realizar as minhas tarefas numa ordem bem estabelecida. tenho os mesmos amigos há anos e fazemos sempre as mesmas coisas. escrevo os prontuários na mesma ordem, com a mesma paragrafação, desde a propedêutica. Sempre leio a revista do final pro começo. pensar em fazer qualquer coisa que pertence à minha rotina de outra maneira é muito difícil pra mim - mas às vezes é necessário.

amizades, por exemplo. algumas amizades são tóxicas. mesmo sabendo disso, eu sempre fui do tipo que queria manter os amigos. já engoli muito sapo fazendo o que os outros queriam, pedindo desculpas sem ter feito nada, lutando pra manter amizades que obviamente não me acrescentam nada. levei alguns anos de terapia pra deixar de fazer isso. hoje, minhas amizades passam por uma análise honesta e criteriosa toda vez que existe algum tipo de crise. eu estou errada? a pessoa está errada? essa amizade está me fazendo bem? se a última pergunta tiver uma resposta negativa, o amigo em questão vai automaticamente pra geladeira. sem rancor. sem briga. sem mágoa. só cortando o mal pela raiz pra evitar que ele se prolongue.

hábitos. hábitos são muito difíceis de serem mudados. trabalho semanalmente na terapia em tentar ser mais flexível com eles, mas tenho falhado miseravelmente nessa tarefa. preciso aprender a me libertar mais, a deixar de lado tudo o que me deixa chata, amarga, irritada e dar espaço pro que me faz uma pessoa melhor. mas como deixar de fazer as coisas da maneira que você sempre fez? não sei. preciso aprender. 

mas, pra mim, o mais difícil é mudar a forma como lido com os meus relacionamentos. sou a pessoa mais cabeça-dura do universo quando me apaixono. gasto tempo, dedicação e amor com o objeto da minha afeição, mas mesmo com todos os esforços, às vezes as coisas não dão certo. e é tão difícil se livrar de algo que você idealizou, mesmo quando você sabe que não vai dar certo... tão doloroso. é fisicamente dolorido ter que dar adeus a alguém que você amou porque essa pessoa já não te faz bem, não te faz feliz - mesmo quando se tem consciência de que essa é a única saída antes de um relacionamento legal virar um amontoado de rancor, de ódio, de mágoa. talvez por isso eu evite me apegar excessivamente às pessoas. porque sei que, cedo ou tarde, inutilia truncat será a única saída.

domingo, 22 de junho de 2014

sobre fuscas e harley davidsons.

na primeira vez em que eu te vi, você estava numas de the doors com aquele cabelo parecido com o do slash, uns jeans surrados que pareciam mais velhos do que os seus 15 anos e jaqueta de couro em pleno verão. eu não gostava do seu cabelo, só que gostei de você e decidi naquele momento que aquele beijo que você me deu no ginásio da escola seria um daqueles beijos que eu jamais esqueceria. eu era uma menina esquisita de 17 anos e cabelo cherry bomb, e você era tão descoladinho e away com as suas camisas de banda que parece impossível que sejamos ainda as mesmas pessoas.

na primeira vez em que eu me apaixonei por você, eu já era muito madura com meus 18 anos recém completados e te achava um pirralho intrometido tocando baixo naquela sua bandinha de rock. eu ficava irritadíssima pensando que um rapaz quase imberbe me fazia pensar em romance - especialmente porque eu sempre soube que um romance entre a gente não tinha nada a ver. deixei passar, você nunca soube, e a gente não perdeu nada por isso.

na primeira vez em que a gente transou, foi desejo e nervosismo e culpa e calor. eu lembro do lençol azul da sua cama e do gosto de tequila na sua boca, mas tudo foi tão esquisito que o resto das memórias se perde numa onda de nervosismo que faz meu estômago revirar. foi bom, eu sei que foi. sempre é bom entre nós. gosto do seu cheiro, gosto do seu gosto, gosto da sua pele e da sua boca, e a gente tem essa química estranha que faz ter vontade de nunca mais sair da sua cama.

na primeira vez em que eu te perdi, eu sequer notei o que havia acontecido. estava sofrendo um dos dramas que só existem na minha cabeça e não notei que você estava ao meu lado, com seu humor ácido e seus braços quentes. e aí alguém soube ver melhor do que eu e, sem eu nem perceber, você tinha ido embora. você não sabe, mas foi doloroso e confuso te perder, porque quando você foi embora, fiquei sentindo como se eu mesma tivesse me perdido.

e agora, na primeira vez em que escrevo sobre você, eu nem sei por que o faço. I mean. teoricamente, eu nem gosto de você. você não sabe direito o que quer da vida. você não tem foco e nem prioridades. num dia gosta de fusca, no outro compra uma harley davidson. você é mulherengo e tem o péssimo hábito de trair suas namoradas comigo. você é independente demais. tem amigos demais. é carismático demais. bebe demais. as nossas personalidades são tão diferentes que parece impossível que ainda estejamos nessa dança desencontrada um pela órbita do outro depois de todos esses anos. mas estamos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

solilóquio do embotamento.

Eu acho que quero morrer.

Não me entenda mal. Não é como se eu não quisesse mais viver. Não é como se eu fosse me matar. Só acho que morrer seria mais... Adequado. Sei lá.

De uns tempos pra cá, a vida tem perdido cada vez mais seu brilho pra mim. Nada me comove. Nada me emociona. Não sinto nada diferente. Não quero fazer nada. Não quero ser nada. Não quero o que eu tenho. Não sinto saudade do que tive. Não anseio pelo que vou ter.

O termo que a gente usa na medicina pra isso é... Embotamento. Isso. Embotamento. Uma sensação de não sentir. Uma vida vivida sem viver.

Durante a depressão, tudo o que eu queria era parar de sentir. Queria que as emoções dentro de mim sumissem. Queria criar uma parede intransponível entre a agonia, a tristeza, o desespero e eu mesma. Usei remédio pra isso durante algum tempo. O antidepressivo nada mais faz do que te colocar pra morar dentro de uma bola de equilíbrio e tranquilidade - e para alguém que sentia e sofria o tempo todo, foi um alívio tremendo. Poder respirar. Poder viver.

Mas aí. Aí não sei. Depois de tudo, eu me acostumei a ter medo de sentir.  Acho que meu subconsciente associa sentir e sofrer. Pouco a pouco, fui me treinando para não deixar mais nenhuma das duas coisas acontecerem. Me fechar pras emoções externas era a única forma de sobreviver.

Só que sobreviver não tem sentido se você não tem vontade de viver. Sobreviver assim, sem cor e  sem som e sem luz e sem sabor, só pra sobreviver, é tão vazio quanto morrer.

A diferença é que morrer é mais rápido. E provavelmente muito mais efetivo.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

nina.

nina diz que tem a pele cor de neve
e dois olhos negros como o breu
nina diz que, embora nova
por amores já chorou que nem viúva
mas acabou, esqueceu
nina adora viajar, mas não se atreve
num país distante como o meu
nina diz que fez meu mapa
e no céu o meu destino rapta
o seu
nina diz que se quiser eu posso ver na tela
a cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
posso imaginar por dentro a casa
a roupa que ela usa, as mechas, a tiara
posso até adivinhar a cara que ela faz
quando me escreve
nina anseia por me conhecer em breve
me levar para a noite de moscou
sempre que esta valsa toca
fecho os olhos, bebo alguma vodca
e vou...


[nina, chico buarque]

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

young and beautiful.

é fácil amar.

é fácil amar cabelos macios e cheirosos. pele sedosa e macia. sorrisos brancos e pálidos e com cheiro de de lírios e flor de laranjeira. é fácil amar beijos com gosto de bala de goma. gosto de sorrisos escondidos, gosto de amores mal contados. é fácil amar pernas delicadas e depiladas. braços lânguidos ao redor do seu pescoço. suspiros e pequenos sussuros de amor. frases inesperadas, risinhos pela metade, olhares quase escondidos. amar assim é fácil.

mas é difícil amar de verdade.

é difícil amar aquilo que você não vê. amargura. cinismo. aquelas marcas no corpo que passam despercebidas à luz do luar. aquelas marcas na alma que são fáceis de esconder assim, por cima, mas que são impossíveis de deixar por baixo da cobertura se alguém resolve te conhecer de verdade. é difícil deixar alguém conhecer suas fraquezas, seus erros, o que falta em você. amar assim é difícil.

amar é fácil. difícil é me amar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

THIS.

'don't you see? don't you understand? you're the love of my life. I can't leave you. but you're constantly leaving me.'

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

retrospectiva.

2013 foi eternidade. durou 3 longos semestres, com uma semana de férias entre cada um. parece-me que o intervalo entre o dezembro de agora e o anterior foi de milênios. tenho a impressão de que envelheci muito nesse tempo. nada é real exceto o presente, e mesmo assim, sinto como se o peso de séculos estivesse se acumulando sobre mim e me esmagando nesse verão.

2013 foi perder. perdi uma colega de turma para o desespero que te faz pensar que a única opção é desistir. perdi minha melhor amiga para uma bobagem mal dita que acabou se transformando em ódio. perdi meu tio e meu segundo pai para a inefabilidade, a inevitabilidade da morte. perdi a mim mesma dentro do sofrimento por tudo o que eu perdi. perdi um pouco da minha credibilidade no universo e nas outras pessoas. perdi um pouco de mim e fiquei um pouquinho menos jana.

2013 foi aprendizado. sinto como se tivesse aprendido mais em 1 ano de internato do que aprendi em 4 anos de faculdade. finalmente descobri o que quero fazer pelo resto da minha vida - e, ao contrário do que eu sempre imaginei, envolve sangue e bisturis. a parte mais importante do aprendizado, entretanto, não foi a acadêmica: nesse ano, eu mergulhei em mim mesma como nunca tive a oportunidade [e nem a vontade] de fazer antes. aprendi a reconhecer meus defeitos e a tentar melhorá-los. aprendi a compreender melhor minha família. aprendi a amar melhor. aprendi a ser uma pessoa melhor.

2013 foi ganhar. no meio de gente tão diferente de mim, eu ganhei amigos. no meio dos amigos dos outros, eu ganhei outros amigos. no meio da minha família, eu encontrei amigos incríveis. no meio dos meus próprios amigos, eu ganhei uma família bizarra e feliz. ganhei um monte de gente. ganhei muito ao descobrir que a melhor forma de ganhar é perceber o quão importantes são as pessoas ao seu redor.

2013 foi apaixonante. me apaixonei por um livro que fala sobre um menino e uma menina com câncer em amsterdan. me apaixonei pelo peeta mellark. me [re]apaixonei pelos poemas da sylvia plath e pela voz da ella fitzgerald e até pela medicina. me apaixonei por jardinagem. me apaixonei por lírios. me apaixonei por alguém que me faz apaixonar todo dia um pouquinho mais.

2013 foi. foi um ano esquisito, cheio de altos e baixos, que parecia anáfora até quase terminar e, agora que termina, mostra que nada mais é do que alegoria, do que silepse, do que preâmbulo para um 2014 que - espero eu - vai ser maravilhoso.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

always.

I breathe you
I taste you
I can't live without you.


odeio sua soberba. odeio sua petulância. odeio sua arrogância. odeio sua falta de objetividade. odeio sua grosseria. odeio seu jeito de dirigir. odeio seu jeito de escrever. odeio sua lascívia. odeio sua babaquice quando você está com os seus amigos. odeio seu descaso.

odeio sua voz. odeio seu nariz. odeio sua boca. odeio seus sorrisos. odeio os pelinhos do seu braço. odeio seus abraços. odeio sua barba. odeio seu cheiro. odeio seu calor. odeio suas mordidas. odeio seus beijos. odeio o fato de você existir.

odeio você.

ou pelo menos é disso que eu tento me convencer todos os dias.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

hello darkness, my old friend.

você sabe reconhecer os sintomas desde que era criança.

o primeiro é não conseguir prestar atenção em mais nada. você, que sempre foi uma pessoa atenta, começa a não conseguir se concentrar nas coisas. deixa capítulos de livros pela metade. demora pra arrancar quando o sinal fica verde. perde o fio da meada nas conversas com seus amigos.

depois, seus padrões de sono começam a mudar. primeiro você sente muito sono. muito cansaço o tempo todo. tudo é demais para você, tudo exige demais, e você não sente vontade de fazer mais nada além de dormir. dorme o dia todo. não faz mais nada além de dormir, e isso começa a te preocupar. então você pára de dormir, e passa dias acordada, preocupada, pensando em o que fazer para poder resolver o que você sabe que está errado, sofrendo porque sabe que não pode fazer nada além de esperar. cada vez mais cansada. cada vez mais distante. cada vez mais fora de si mesma.

tudo na sua cabeça está bagunçado. você sente os pensamentos se misturarem, se sobreporem, e pouco a pouco eles param de fazer sentido. na verdade, o mundo começa a perder o sentido. tudo vira ondas e partículas e energia e nada disso faz sentido. nada mais importa. você só quer sumir. esses são os piores dias. você sabe, lá no fundo, que cedo ou tarde tudo vai voltar ao normal. pode não ficar tudo bem, mas vai ficar suportável, você vai sair dessa.

mas até lá, tudo é cinza e cansaço e fraqueza e nada tem o mínimo de sentido. você quer morrer, você quer sumir, mas você não morre, você não some. você é forte. não é a primeira vez que isso acontece. não vai ser a última. você sabe lidar com isso. de uma forma errada e torturante, mas sabe. no fundo, você sabe que vai ficar tudo bem.